
Escolho os meus amigos […] pela pupila(1). Os olhos dos meus amigos espelham aquilo que eu sou. Neles encontro a minha identidade, o meu valor, a minha utilidade e até o meu estado de espírito. Sou aquilo que os meus amigos reflectem. De que me serve ter uma identidade própria se não for para usá-la com os outros?
Não sei distinguir uma amizade autêntica das demais. Todas elas, desde as adolescentes (as mais intensas) às instrumentais (abundantes no meio profissional), mostram aquilo que sou. Mantenho-me estrategicamente ignorante nesse capítulo para que aquilo que sou hoje não seja fruto de escolhas pessoais, de selecções convenientes.
E, assim como até um cabelo projecta a sua sombra(2), reservo para os meus inimigos um lugar de apreço, pois é muitas vezes na qualidade dos meus inimigos que vejo a diferença que faço, o impacto que tenho.
É preciso ser-se muito miserável para não se ter inimigos(3).
Pelos meus amigos não nutro afeição nem devoção: a afeição dirige-se a quem tem algo a menos que nós; a devoção a quem tem algo a mais(4). Pelos meus amigos, que devem estar ao meu lado, em pé de igualdade, entre a afeição e a devoção, sinto uma forma muito particular de amor. Um amor que se distingue dos conceitos mais vulgarizados na literatura poética neoclássica, nos romances mais comoventes, nos manuais de bons costumes e mesmo nos compêndios de índole religiosa. Trata-se de um amor egoísta, de tal forma egoísta que me levo a crer que procuro neles um pouco de mim mesmo. Sim, deve ser isso. É meu amigo quem me faz bem, seja na diversão ou na utilidade. É meu amigo quem está comigo, por mim e para mim, no presente, quem me mostra ou devolve um pouco de mim mesmo. Amigo meu é feito por mim e eu sou feito por ele.
Não meço os meus amigos pela quantidade. Não me fico a conhecer melhor pela maior quantidade de pedaços de mim espalhados entre eles. Aliás, assim fico baralhado, porque a quantidade de amigos é directamente proporcional à dispersão de opiniões. Por outro lado, poucos amigos contribuem para a viciação do meu auto-conceito. O número justo é indefinível, é variável, é instável. Mas é, na prática, um número exacto.
A amizade é uma instituição frágil, susceptível de mudar ou de se extinguir. Está dependente do objectivo, da utilidade, do tempo e do lugar. É e será sempre, tal como a construção de mim mesmo, uma obra incompleta: vou sendo os amigos que vou tendo. Tenho amigos para saber quem eu sou(1). E tu, quem és?
Talvez nunca ninguém venha a saber concretamente quem é. O mais certo é terminar a vida ignorando a verdadeira identidade. Porque são as experiências que conferem personalidade, que moldam a pessoa. E haverá sempre mais experiências que tempo de vida.
Mas também é certo que ninguém precisa de saber quem é por completo. Basta que conheça de si mesmo os departamentos funcionais suficientes para poder saber-se diferentes dos demais. É nessa diferença que reside, no fundo, a razão de existência de cada um de nós, a razão pela qual um mundo plural se torna tão singular, a razão que nos leva a rodearmo-nos destas pessoas e não daquelas, a razão que nos torna tão especiais ao ponto de ninguém, em tempo e lugar algum, ser igual a nós.
Somos, para o bem e para o mal, os pedaços de nós espalhados por entre aqueles que nos rodeiam.
(1) In Loucos e Santos (Oscar Wilde)
(2) Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro)
(3) Miserrima est fortuna, quæ inimico caret (Publílio Siro)
(4) Descartes in Apud Baldini (2000)
Joel Cunha
Não sei distinguir uma amizade autêntica das demais. Todas elas, desde as adolescentes (as mais intensas) às instrumentais (abundantes no meio profissional), mostram aquilo que sou. Mantenho-me estrategicamente ignorante nesse capítulo para que aquilo que sou hoje não seja fruto de escolhas pessoais, de selecções convenientes.
E, assim como até um cabelo projecta a sua sombra(2), reservo para os meus inimigos um lugar de apreço, pois é muitas vezes na qualidade dos meus inimigos que vejo a diferença que faço, o impacto que tenho.
É preciso ser-se muito miserável para não se ter inimigos(3).
Pelos meus amigos não nutro afeição nem devoção: a afeição dirige-se a quem tem algo a menos que nós; a devoção a quem tem algo a mais(4). Pelos meus amigos, que devem estar ao meu lado, em pé de igualdade, entre a afeição e a devoção, sinto uma forma muito particular de amor. Um amor que se distingue dos conceitos mais vulgarizados na literatura poética neoclássica, nos romances mais comoventes, nos manuais de bons costumes e mesmo nos compêndios de índole religiosa. Trata-se de um amor egoísta, de tal forma egoísta que me levo a crer que procuro neles um pouco de mim mesmo. Sim, deve ser isso. É meu amigo quem me faz bem, seja na diversão ou na utilidade. É meu amigo quem está comigo, por mim e para mim, no presente, quem me mostra ou devolve um pouco de mim mesmo. Amigo meu é feito por mim e eu sou feito por ele.
Não meço os meus amigos pela quantidade. Não me fico a conhecer melhor pela maior quantidade de pedaços de mim espalhados entre eles. Aliás, assim fico baralhado, porque a quantidade de amigos é directamente proporcional à dispersão de opiniões. Por outro lado, poucos amigos contribuem para a viciação do meu auto-conceito. O número justo é indefinível, é variável, é instável. Mas é, na prática, um número exacto.
A amizade é uma instituição frágil, susceptível de mudar ou de se extinguir. Está dependente do objectivo, da utilidade, do tempo e do lugar. É e será sempre, tal como a construção de mim mesmo, uma obra incompleta: vou sendo os amigos que vou tendo. Tenho amigos para saber quem eu sou(1). E tu, quem és?
Talvez nunca ninguém venha a saber concretamente quem é. O mais certo é terminar a vida ignorando a verdadeira identidade. Porque são as experiências que conferem personalidade, que moldam a pessoa. E haverá sempre mais experiências que tempo de vida.
Mas também é certo que ninguém precisa de saber quem é por completo. Basta que conheça de si mesmo os departamentos funcionais suficientes para poder saber-se diferentes dos demais. É nessa diferença que reside, no fundo, a razão de existência de cada um de nós, a razão pela qual um mundo plural se torna tão singular, a razão que nos leva a rodearmo-nos destas pessoas e não daquelas, a razão que nos torna tão especiais ao ponto de ninguém, em tempo e lugar algum, ser igual a nós.
Somos, para o bem e para o mal, os pedaços de nós espalhados por entre aqueles que nos rodeiam.
(1) In Loucos e Santos (Oscar Wilde)
(2) Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro)
(3) Miserrima est fortuna, quæ inimico caret (Publílio Siro)
(4) Descartes in Apud Baldini (2000)
Joel Cunha
Eu vejo a amizade como uma corda esticada: só é possível de ambos os lados trabalharem por isso. Se um deles largar, a corda ficará sempre caída, independentemente do esforço que o outro fizer.
ResponderEliminarOs verdadeiros amigos nunca largam a corda, mesmo nos momentos de maior desgaste. E são esses amigos que fazem parte de nós e nos moldam, que nos fazem sermos melhores do que seríamos sozinhos.