terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quem Sou Eu

Escolho os meus amigos […] pela pupila(1). Os olhos dos meus amigos espelham aquilo que eu sou. Neles encontro a minha identidade, o meu valor, a minha utilidade e até o meu estado de espírito. Sou aquilo que os meus amigos reflectem. De que me serve ter uma identidade própria se não for para usá-la com os outros?
Não sei distinguir uma amizade autêntica das demais. Todas elas, desde as adolescentes (as mais intensas) às instrumentais (abundantes no meio profissional), mostram aquilo que sou. Mantenho-me estrategicamente ignorante nesse capítulo para que aquilo que sou hoje não seja fruto de escolhas pessoais, de selecções convenientes.
E, assim como até um cabelo projecta a sua sombra(2), reservo para os meus inimigos um lugar de apreço, pois é muitas vezes na qualidade dos meus inimigos que vejo a diferença que faço, o impacto que tenho.
É preciso ser-se muito miserável para não se ter inimigos(3).
Pelos meus amigos não nutro afeição nem devoção: a afeição dirige-se a quem tem algo a menos que nós; a devoção a quem tem algo a mais(4). Pelos meus amigos, que devem estar ao meu lado, em pé de igualdade, entre a afeição e a devoção, sinto uma forma muito particular de amor. Um amor que se distingue dos conceitos mais vulgarizados na literatura poética neoclássica, nos romances mais comoventes, nos manuais de bons costumes e mesmo nos compêndios de índole religiosa. Trata-se de um amor egoísta, de tal forma egoísta que me levo a crer que procuro neles um pouco de mim mesmo. Sim, deve ser isso. É meu amigo quem me faz bem, seja na diversão ou na utilidade. É meu amigo quem está comigo, por mim e para mim, no presente, quem me mostra ou devolve um pouco de mim mesmo. Amigo meu é feito por mim e eu sou feito por ele.
Não meço os meus amigos pela quantidade. Não me fico a conhecer melhor pela maior quantidade de pedaços de mim espalhados entre eles. Aliás, assim fico baralhado, porque a quantidade de amigos é directamente proporcional à dispersão de opiniões. Por outro lado, poucos amigos contribuem para a viciação do meu auto-conceito. O número justo é indefinível, é variável, é instável. Mas é, na prática, um número exacto.
A amizade é uma instituição frágil, susceptível de mudar ou de se extinguir. Está dependente do objectivo, da utilidade, do tempo e do lugar. É e será sempre, tal como a construção de mim mesmo, uma obra incompleta: vou sendo os amigos que vou tendo. Tenho amigos para saber quem eu sou(1). E tu, quem és?
Talvez nunca ninguém venha a saber concretamente quem é. O mais certo é terminar a vida ignorando a verdadeira identidade. Porque são as experiências que conferem personalidade, que moldam a pessoa. E haverá sempre mais experiências que tempo de vida.
Mas também é certo que ninguém precisa de saber quem é por completo. Basta que conheça de si mesmo os departamentos funcionais suficientes para poder saber-se diferentes dos demais. É nessa diferença que reside, no fundo, a razão de existência de cada um de nós, a razão pela qual um mundo plural se torna tão singular, a razão que nos leva a rodearmo-nos destas pessoas e não daquelas, a razão que nos torna tão especiais ao ponto de ninguém, em tempo e lugar algum, ser igual a nós.
Somos, para o bem e para o mal, os pedaços de nós espalhados por entre aqueles que nos rodeiam.

(1) In Loucos e Santos (Oscar Wilde)
(2) Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro)
(3) Miserrima est fortuna, quæ inimico caret (Publílio Siro)
(4) Descartes in Apud Baldini (2000)

Joel Cunha