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segunda-feira, 14 de abril de 2014
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Procurar gatos pretos…
Temos assistido a uma luta hercúlea entre o desemprego e uma amorfa, ineficaz e desajeitada política de empregabilidade. Governo após Governo, há cada vez mais gente sem trabalho.
O conceito de emprego mudou: já não é estável, já não é para executar uma só função e muito menos é para toda a vida. E também não é para quem quer. E também não tem que ser próximo da área de formação.
É preciso olhar para o problema de outra perspetiva. É tempo de deitar fora velhas receitas que não remedeiam coisa alguma e reinventar o sistema de trabalho.
Talvez seja necessário lembrar que o trabalho serve para produzir riqueza, para melhorar a vida da comunidade e de cada um (por esta ordem). O trabalho é uma invenção do Homem, uma alternativa ao estilo recolector. Atravessou várias revoluções industriais e sobreviveu enquanto sistema de produção de riqueza e de melhoria das vidas comunitária e individual. Mas parece que agora está a ter dificuldade para se manter saudável: definha lenta e gradualmente. Há cada vez mais gente sem trabalho.
Estaremos por certo a atravessar mais uma revolução industrial, mais uma em que o trabalhador é substituído por máquinas, por tecnologia que faz a vez de muitos trabalhadores. E que não se engana, não se cansa e não reclama.
É uma nova organização do trabalho na qual o trabalhador só entra enquanto não houver máquina que faça a sua vez. E isso é sempre uma questão de tempo, porque há apenas dois tipos de trabalhadores: os que já foram substituídos e os que o serão.
Daí que, a menos que queiramos voltar ao estilo recolector, é urgente redefinir o conceito de trabalho.
A solução passa muito pela partilha, pela comunicação, pelo trabalho comunitário e coletivo. Passa pelo contato entre as pessoas, pelo altruísmo, pela entrega e, acima de tudo, pela vontade de enriquecer a comunidade. Passa também por uma utilização mais racional dos recursos materiais e humanos. Passa obviamente pela reinvenção das formas de produção, pelo empenho, pela dedicação e esforço. Passa pela atitude. Doutra forma há cada vez mais gente sem trabalho.
Recentrar o objetivo para o qual o trabalho foi inventado parece tão difícil como procurar gatos pretos em quartos pretos onde não há gatos pretos. Mas há quem os encontre.
É preciso olhar para o problema de outra perspetiva. É tempo de deitar fora velhas receitas que não remedeiam coisa alguma e reinventar o sistema de trabalho.
Talvez seja necessário lembrar que o trabalho serve para produzir riqueza, para melhorar a vida da comunidade e de cada um (por esta ordem). O trabalho é uma invenção do Homem, uma alternativa ao estilo recolector. Atravessou várias revoluções industriais e sobreviveu enquanto sistema de produção de riqueza e de melhoria das vidas comunitária e individual. Mas parece que agora está a ter dificuldade para se manter saudável: definha lenta e gradualmente. Há cada vez mais gente sem trabalho.
Estaremos por certo a atravessar mais uma revolução industrial, mais uma em que o trabalhador é substituído por máquinas, por tecnologia que faz a vez de muitos trabalhadores. E que não se engana, não se cansa e não reclama.
É uma nova organização do trabalho na qual o trabalhador só entra enquanto não houver máquina que faça a sua vez. E isso é sempre uma questão de tempo, porque há apenas dois tipos de trabalhadores: os que já foram substituídos e os que o serão.
Daí que, a menos que queiramos voltar ao estilo recolector, é urgente redefinir o conceito de trabalho.
A solução passa muito pela partilha, pela comunicação, pelo trabalho comunitário e coletivo. Passa pelo contato entre as pessoas, pelo altruísmo, pela entrega e, acima de tudo, pela vontade de enriquecer a comunidade. Passa também por uma utilização mais racional dos recursos materiais e humanos. Passa obviamente pela reinvenção das formas de produção, pelo empenho, pela dedicação e esforço. Passa pela atitude. Doutra forma há cada vez mais gente sem trabalho.
Recentrar o objetivo para o qual o trabalho foi inventado parece tão difícil como procurar gatos pretos em quartos pretos onde não há gatos pretos. Mas há quem os encontre.
Joel Cunha
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Quem Sou Eu

Escolho os meus amigos […] pela pupila(1). Os olhos dos meus amigos espelham aquilo que eu sou. Neles encontro a minha identidade, o meu valor, a minha utilidade e até o meu estado de espírito. Sou aquilo que os meus amigos reflectem. De que me serve ter uma identidade própria se não for para usá-la com os outros?
Não sei distinguir uma amizade autêntica das demais. Todas elas, desde as adolescentes (as mais intensas) às instrumentais (abundantes no meio profissional), mostram aquilo que sou. Mantenho-me estrategicamente ignorante nesse capítulo para que aquilo que sou hoje não seja fruto de escolhas pessoais, de selecções convenientes.
E, assim como até um cabelo projecta a sua sombra(2), reservo para os meus inimigos um lugar de apreço, pois é muitas vezes na qualidade dos meus inimigos que vejo a diferença que faço, o impacto que tenho.
É preciso ser-se muito miserável para não se ter inimigos(3).
Pelos meus amigos não nutro afeição nem devoção: a afeição dirige-se a quem tem algo a menos que nós; a devoção a quem tem algo a mais(4). Pelos meus amigos, que devem estar ao meu lado, em pé de igualdade, entre a afeição e a devoção, sinto uma forma muito particular de amor. Um amor que se distingue dos conceitos mais vulgarizados na literatura poética neoclássica, nos romances mais comoventes, nos manuais de bons costumes e mesmo nos compêndios de índole religiosa. Trata-se de um amor egoísta, de tal forma egoísta que me levo a crer que procuro neles um pouco de mim mesmo. Sim, deve ser isso. É meu amigo quem me faz bem, seja na diversão ou na utilidade. É meu amigo quem está comigo, por mim e para mim, no presente, quem me mostra ou devolve um pouco de mim mesmo. Amigo meu é feito por mim e eu sou feito por ele.
Não meço os meus amigos pela quantidade. Não me fico a conhecer melhor pela maior quantidade de pedaços de mim espalhados entre eles. Aliás, assim fico baralhado, porque a quantidade de amigos é directamente proporcional à dispersão de opiniões. Por outro lado, poucos amigos contribuem para a viciação do meu auto-conceito. O número justo é indefinível, é variável, é instável. Mas é, na prática, um número exacto.
A amizade é uma instituição frágil, susceptível de mudar ou de se extinguir. Está dependente do objectivo, da utilidade, do tempo e do lugar. É e será sempre, tal como a construção de mim mesmo, uma obra incompleta: vou sendo os amigos que vou tendo. Tenho amigos para saber quem eu sou(1). E tu, quem és?
Talvez nunca ninguém venha a saber concretamente quem é. O mais certo é terminar a vida ignorando a verdadeira identidade. Porque são as experiências que conferem personalidade, que moldam a pessoa. E haverá sempre mais experiências que tempo de vida.
Mas também é certo que ninguém precisa de saber quem é por completo. Basta que conheça de si mesmo os departamentos funcionais suficientes para poder saber-se diferentes dos demais. É nessa diferença que reside, no fundo, a razão de existência de cada um de nós, a razão pela qual um mundo plural se torna tão singular, a razão que nos leva a rodearmo-nos destas pessoas e não daquelas, a razão que nos torna tão especiais ao ponto de ninguém, em tempo e lugar algum, ser igual a nós.
Somos, para o bem e para o mal, os pedaços de nós espalhados por entre aqueles que nos rodeiam.
(1) In Loucos e Santos (Oscar Wilde)
(2) Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro)
(3) Miserrima est fortuna, quæ inimico caret (Publílio Siro)
(4) Descartes in Apud Baldini (2000)
Joel Cunha
Não sei distinguir uma amizade autêntica das demais. Todas elas, desde as adolescentes (as mais intensas) às instrumentais (abundantes no meio profissional), mostram aquilo que sou. Mantenho-me estrategicamente ignorante nesse capítulo para que aquilo que sou hoje não seja fruto de escolhas pessoais, de selecções convenientes.
E, assim como até um cabelo projecta a sua sombra(2), reservo para os meus inimigos um lugar de apreço, pois é muitas vezes na qualidade dos meus inimigos que vejo a diferença que faço, o impacto que tenho.
É preciso ser-se muito miserável para não se ter inimigos(3).
Pelos meus amigos não nutro afeição nem devoção: a afeição dirige-se a quem tem algo a menos que nós; a devoção a quem tem algo a mais(4). Pelos meus amigos, que devem estar ao meu lado, em pé de igualdade, entre a afeição e a devoção, sinto uma forma muito particular de amor. Um amor que se distingue dos conceitos mais vulgarizados na literatura poética neoclássica, nos romances mais comoventes, nos manuais de bons costumes e mesmo nos compêndios de índole religiosa. Trata-se de um amor egoísta, de tal forma egoísta que me levo a crer que procuro neles um pouco de mim mesmo. Sim, deve ser isso. É meu amigo quem me faz bem, seja na diversão ou na utilidade. É meu amigo quem está comigo, por mim e para mim, no presente, quem me mostra ou devolve um pouco de mim mesmo. Amigo meu é feito por mim e eu sou feito por ele.
Não meço os meus amigos pela quantidade. Não me fico a conhecer melhor pela maior quantidade de pedaços de mim espalhados entre eles. Aliás, assim fico baralhado, porque a quantidade de amigos é directamente proporcional à dispersão de opiniões. Por outro lado, poucos amigos contribuem para a viciação do meu auto-conceito. O número justo é indefinível, é variável, é instável. Mas é, na prática, um número exacto.
A amizade é uma instituição frágil, susceptível de mudar ou de se extinguir. Está dependente do objectivo, da utilidade, do tempo e do lugar. É e será sempre, tal como a construção de mim mesmo, uma obra incompleta: vou sendo os amigos que vou tendo. Tenho amigos para saber quem eu sou(1). E tu, quem és?
Talvez nunca ninguém venha a saber concretamente quem é. O mais certo é terminar a vida ignorando a verdadeira identidade. Porque são as experiências que conferem personalidade, que moldam a pessoa. E haverá sempre mais experiências que tempo de vida.
Mas também é certo que ninguém precisa de saber quem é por completo. Basta que conheça de si mesmo os departamentos funcionais suficientes para poder saber-se diferentes dos demais. É nessa diferença que reside, no fundo, a razão de existência de cada um de nós, a razão pela qual um mundo plural se torna tão singular, a razão que nos leva a rodearmo-nos destas pessoas e não daquelas, a razão que nos torna tão especiais ao ponto de ninguém, em tempo e lugar algum, ser igual a nós.
Somos, para o bem e para o mal, os pedaços de nós espalhados por entre aqueles que nos rodeiam.
(1) In Loucos e Santos (Oscar Wilde)
(2) Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro)
(3) Miserrima est fortuna, quæ inimico caret (Publílio Siro)
(4) Descartes in Apud Baldini (2000)
Joel Cunha
sábado, 26 de março de 2011
Velhos são os trapos

Se o jovem soubesse e o velho pudesse não haveria nada que não se fizesse. Este antigo provérbio verte de forma grosseira os limites de velocidade a que a evolução da humanidade está condenada. Há algo de profundamente errado com esta organização social, um colossal desperdício de energias desorientadas e de saberes feitos de experiência.
A culpa primária pode residir na genética, até porque ela é a principal responsável pela curva do crescimento e envelhecimento. Mas isto não retira responsabilidades a todo um conjunto de vontades de manter os jovens na ignorância e os velhos na prateleira. São muito restritos os círculos onde se faz com relativo sucesso o cruzamento entre sabedoria e força. E a escola tem tido algumas dificuldades em manter-se nesse meio. Uma verdadeira e honesta aliança entre a pujança da juventude e a experiência da velhice não se faz apenas da expedição de matérias escolares. Faz-se antes de uma colaboração estreita, prática e funcional entre elas, à semelhança de uma tutoria ou, quando devidamente estruturada, de uma família. Numa sociedade de economia simples, como é o caso da civilização Arapeshe da Nova Guiné, os jovens vão participando progressivamente nas actividades dos mais velhos: começam por cultivar o jardim dos pais ou dos avós e, mais tarde, o seu próprio jardim. Assim, a transição da criança para a vida adulta faz-se lenta e gradativamente, não havendo grande espaço para que se manifestem as crises a que as sociedades ocidentais modernas apelidam bondosamente de típicas ou normais na adolescência.
Como pode uma vida inteira de conhecimento e experiência ser encostada num canto da casa ou acondicionada num lar? Que terra é esta que remete os velhos para um lugar de esquecimento? Não é de estranhar, então, que a doença de maior incidência na terceira idade seja a solidão. E de quanta injustiça se reveste esta situação!
Compreender o fenómeno que nos leva a atirar a velhice para uma ilha remete-nos para explicações complexas que passam, nomeadamente, pelas teorias psicanalíticas de evitação de medos e de perpetuação das características com as quais nos identificamos. Mas outra explicação concorre, provavelmente com vantagem sobre as demais, para o entendimento do enigma: trata-se da questão económica e de tudo o que gravita à volta dela. Quanto custa aproveitar a sabedoria feita de idade? Qual é o preço justo a pagar por tão precioso legado? Já alguém fez bem as contas?
Este é um dos maiores paradoxos das sociedades ditas civilizadas: há, por um lado, mão-de-obra válida e disponível para ensinar, orientar e comandar, cérebros calejados a rodos, ávidos por se deixarem aproveitar nesse sentido e, por outro, toda uma juventude a precisar de ensinamentos, orientações e comandos, matéria-prima imberbe aos montes, à procura de quem a trabalhe.
Velhos são os trapos! A eterna juventude é para esquecer mas há claramente neste adágio, neste grito de revolta, um manifesto contra a resignação. A juventude tal como a velhice são, além de conceitos associados à passagem do tempo, estados de alma. Nesta perspectiva cabe um pouco de tudo: desde velhos aos quarenta a adolescentes aos trinta. Mas há toda uma massa de gente que só parou por força da estruturação laboral, da vontade de outros e que, por mais que queira, não encontra forma de exercer o seu direito de juventude.
Os velhos deste país estão injustamente esquecidos. Os programas para a idosos vão mais no sentido de os entreter do que de lhes aproveitar o talento.
Ser ou não ser velho não é tanto uma questão - é uma indecisão, uma extraordinária indecisão de todos nós.
Joel Cunha
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Crise? Vamos lá ver...

Teatro de Chicago, ano de 1903, 602 vítimas. "Quando os bombeiros mais tarde desembaraçaram os corpos, as marcas de saltos nas faces mortas testemunharam silenciosamente o facto cruel de que os animais humanos espicaçados pelo terror são tão loucos e impiedosos como gado desenfreado" (Foy & Harlow, 1928 cit. in Brown, p. 715).
Este fenómeno e outros que envolvem multidões são explicáveis pela influência que o grupo exerce no comportamento das pessoas. Em certas circunstâncias, a maioria das pessoas assume comportamentos que nunca assumiria se estivesse sozinha. Pode, por exemplo, mostrar-se agressiva a um nível de violência bestial que seria inconcebível se agisse isoladamente, como aconteceu com as turbas de linchamento dos estados americanos do sul. Noutras circunstâncias, as multidões podem tornar-se freneticamente apavoradas, como sucedeu no pânico que varreu o auditório do Teatro de Chicago quando alguém gritou «Fogo!».
Se atentarmos ao facto de estarmos todos, cada um à sua maneira e intensidade, receosos com a crise que se avizinha, não sabendo ainda muito bem que contornos poderá ela assumir e que consequências concretas poderão advir para as famílias, estamos claramente sob a influência deste fenómeno de multidões. Não em sentido literal, porque não esmurramos nem fugimos em pânico, mas de forma latente porque nos preparamos para agir. Sentimos uma espécie de tensão enevoada no ar, algo que nos leva à contenção, à reserva e à desconfiança, que não nos resguarda nem protege de um perigo sem rosto, que apenas nos faz aguardar pela sua chegada. Motivamo-nos uns aos outros, quer falando quer ouvindo, para a defesa, para a acção, antecipando o inimigo. Mas também para a apreensão e para o pânico. Os noticiários abrem quase invariavelmente com a crise. Os preços oscilam. Os salários, os impostos e as regalias sociais também. Tudo mexe. Haverá por certo mudanças. O futuro, que já era incerto, parece ser agora ainda mais incerto.
Mas haverá mesmo só uma visão? Aquela que vem dos meios de comunicação social, das massas, dos outros, do pânico da multidão? Será a crise uma espécie de assombração que vem de fora e que se instalará mais cedo ou mais tarde na casa de todos, da mesma maneira, subtraindo uma boa fatia da qualidade de vida?
Não tenhamos ilusões: ela está aí! E o seu maior perigo reside na instalação e no contágio social do pânico. Quantas mortes se evitariam se ninguém tivesse gritado «Fogo!» antes de se ter avaliado a real dimensão do incêndio no Teatro de Chicago? Quantas mortes se evitariam se, ao contrário do "salve-se quem puder", existisse um plano de evacuação concertada de emergência?
A reacção individual à crise não tem obrigatoriamente que sofrer da influência externa, do grupo. Pode ser ponderada entre os seus reais efeitos na economia doméstica e as pessoais e reais possibilidades de resistência. Pode ser um exercício individual, objectivo e independente em vez de uma amálgama colectiva, subjectiva e confusa. Pode ainda ser a oportunidade para mudar o paradigma do tal fenómeno de multidão, tornando-o favorável à multidão. Por outras palavras e citando John F. Kennedy nos anos sessenta: "Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti… Pergunta antes o que podes tu fazer pelo teu país!".
Joel Cunha
sábado, 17 de julho de 2010
A Mudança

Tudo muda. É inevitável. “Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”, como dizia Camões. É um facto incontornável para o qual não há alternativa. Chega a ser uma condição para a existência de vida.
A mudança é uma característica da Natureza e, exceptuando as leis da Natureza, não há como não mudar. Já alguém tentou parar, fazer-se eternamente jovem? À luz dos nossos conhecimentos actuais não é de todo possível. Bom, talvez haja uma secreta esperança vinda de Einstein ou da Física Quântica ou mesmo duma tal de Entropia. Aguardemos!
A grande consequência da mudança é a adaptação. Desde Darwin que o sabemos. O pescoço da girafa não “cresceu” para se adaptar às folhagens elevadas? E não estamos nós a perder gradualmente os sisos pelo facto da nossa ementa ter deixado de ser tão exigente para com a nossa dentição e aparelho digestivo? A adaptação traduz a capacidade plástica de sobrevivência, o poder de encaixe do ser ao meio, a única via de reposição do equilíbrio ferido pela mudança.
A mudança é em si mesma um acto de adaptação, porque surge da necessidade de ajustar o que está desajustado: o desajustamento gera tensão e desconforto que, por sua vez, precipita a mudança.
A mudança é uma transição, uma passagem de um estado para outro com “novas qualidades”. As transições são momentos importantes porque nelas intervêm invariavelmente rupturas e hábitos. A despedida dalgumas rotinas que cedem lugar a novos comportamentos, como acontece na aprendizagem, pode fazer-se com alguma resistência. Cada um reage à mudança à sua maneira, esgrimindo a sua artilharia pessoal de forma mais ou menos musculada, manifestando maior ou menor vontade de adaptação. Mas há um consenso generalizado sobre as boas práticas acerca desta matéria, uma espécie de manual cultural aprendido na convivência familiar, escolar e social que prescreve o leque de reacções a ter em conteúdo, forma e intensidade face à mudança.
A quebra de velhos hábitos tanto pode ser acompanhada de sofrimento como de alegria, tanto pode ser um manifesto de tristeza como de regozijo. No crescimento, tal como noutras áreas, a transição é obrigatória mas a crise é opcional.
Joel Cunha
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