
Teatro de Chicago, ano de 1903, 602 vítimas. "Quando os bombeiros mais tarde desembaraçaram os corpos, as marcas de saltos nas faces mortas testemunharam silenciosamente o facto cruel de que os animais humanos espicaçados pelo terror são tão loucos e impiedosos como gado desenfreado" (Foy & Harlow, 1928 cit. in Brown, p. 715).
Este fenómeno e outros que envolvem multidões são explicáveis pela influência que o grupo exerce no comportamento das pessoas. Em certas circunstâncias, a maioria das pessoas assume comportamentos que nunca assumiria se estivesse sozinha. Pode, por exemplo, mostrar-se agressiva a um nível de violência bestial que seria inconcebível se agisse isoladamente, como aconteceu com as turbas de linchamento dos estados americanos do sul. Noutras circunstâncias, as multidões podem tornar-se freneticamente apavoradas, como sucedeu no pânico que varreu o auditório do Teatro de Chicago quando alguém gritou «Fogo!».
Se atentarmos ao facto de estarmos todos, cada um à sua maneira e intensidade, receosos com a crise que se avizinha, não sabendo ainda muito bem que contornos poderá ela assumir e que consequências concretas poderão advir para as famílias, estamos claramente sob a influência deste fenómeno de multidões. Não em sentido literal, porque não esmurramos nem fugimos em pânico, mas de forma latente porque nos preparamos para agir. Sentimos uma espécie de tensão enevoada no ar, algo que nos leva à contenção, à reserva e à desconfiança, que não nos resguarda nem protege de um perigo sem rosto, que apenas nos faz aguardar pela sua chegada. Motivamo-nos uns aos outros, quer falando quer ouvindo, para a defesa, para a acção, antecipando o inimigo. Mas também para a apreensão e para o pânico. Os noticiários abrem quase invariavelmente com a crise. Os preços oscilam. Os salários, os impostos e as regalias sociais também. Tudo mexe. Haverá por certo mudanças. O futuro, que já era incerto, parece ser agora ainda mais incerto.
Mas haverá mesmo só uma visão? Aquela que vem dos meios de comunicação social, das massas, dos outros, do pânico da multidão? Será a crise uma espécie de assombração que vem de fora e que se instalará mais cedo ou mais tarde na casa de todos, da mesma maneira, subtraindo uma boa fatia da qualidade de vida?
Não tenhamos ilusões: ela está aí! E o seu maior perigo reside na instalação e no contágio social do pânico. Quantas mortes se evitariam se ninguém tivesse gritado «Fogo!» antes de se ter avaliado a real dimensão do incêndio no Teatro de Chicago? Quantas mortes se evitariam se, ao contrário do "salve-se quem puder", existisse um plano de evacuação concertada de emergência?
A reacção individual à crise não tem obrigatoriamente que sofrer da influência externa, do grupo. Pode ser ponderada entre os seus reais efeitos na economia doméstica e as pessoais e reais possibilidades de resistência. Pode ser um exercício individual, objectivo e independente em vez de uma amálgama colectiva, subjectiva e confusa. Pode ainda ser a oportunidade para mudar o paradigma do tal fenómeno de multidão, tornando-o favorável à multidão. Por outras palavras e citando John F. Kennedy nos anos sessenta: "Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti… Pergunta antes o que podes tu fazer pelo teu país!".
Joel Cunha
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